[haicai] Ansiedade

há três dias cinzas
a umidade entorta folhas
de papel em branco

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Esto és solo roquenrol, pero me encanta!

Estante de livraria em Asunción (PY) (foto de Thais Brandão)

Muita gente me pergunta o que os nossos irmãos de continente consomem de cultura do Brasil. Musicalmente, é uma tarefa árdua descrever. Caetano Veloso, Djavan e Lenine parecem ser a santíssima trindade da classe média. Enquanto isso, nas rádios populares é possível encontrar muito axé e samba. Já nessa altura, na Bolívia, podemos ouvir em qualquer canto música sertaneja romântica, coisas como Leandro e Leonardo e assemelhados.

É claro que o quadro é bastante simplificador. No entanto, com relação à literatura, não há o que simplificar: Paulo Coelho é o autor brasileiro que está em todas as estantes. Coelho não, “Coelo” – assim eles pronunciam o nome do mago, sem conseguir fazer soar nosso “lh”. Muitos também ficam surpresos quando conto que “coelho” quer dizer “conejo”, aquele lindo animalzinho que traz os ovos de páscoa. Alguns não acreditam, outros caem na gargalhada.

No Uruguai e em algumas cidades argentinas, últimas trincheiras da intelectualidade de “alta cultura”, o escritor ainda enfrenta preconceitos, apesar de seus livros serem encontrados em qualquer banca de revista.

“Coelo não traz nada de Brasil, é um escritor genérico, sem cor local”, me dizem eles como se isso fosse um defeito. Sentem saudades de Jorge Amado, esse sim o único a ser tão popular como Coelho no nosso continente. Respondo que esse país retratado nas páginas de Jorge Amado é para mim tão estranho quanto o caminho de Santiago de Compostela. Só aí se dão conta de que o Brasil é bem maior do que a Bahia.

Também reclamam que não há nada de novo em sua linguagem. Respondo que nenhuma banda precisa reinventar o roquenrol para ser incrivelmente boa, ao contrário, it’s only rock‘n’roll but I like it. Mas sempre que chegamos nessa altura da conversa, a mãe do intelectual traz um toddy para o filho e diz para ele se apressar senão vai chegar atrasado na universidade.

O intelectual pede licença, sua mãe vai levá-lo para a aula. As janelas do carro estão fechadas e há algo no ar que lembra a Europa do século XX. Aqui fora, longe do ar condicionado, os arquétipos do mago continuam a ser vendidos como se nada tivesse acontecido. Ufa, aqui continua sendo América do Sul, século XXI. É no aqui e agora que eu quero viver.

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[poema] A primeira pedra

Em Paso de los Libres
um grupo de idades variadas
recolhe pedras e espera o El Gran Capitán passar.

Os passageiros do trem
fecham as venezianas de lata
temendo que as pedras rompam os vidros.

Na semi-penumbra,
ouça a artilharia nos acertar
e algum pibe gargalhar de alegria
por ter logrado estilhaçar uma janela.

Tão logo o ataque termina
a luz volta a iluminar minhas folhas e,
tal como o pibe lá de fora,
tento marcar com a caneta
o imenso trem de papel que passa.

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Benjamín e a luta contra o mainstream

A autora independente mais lida da Bolívia tem 60 anos e seus livros falam sobre seres encantados que tocam música barroca em ruas subterrâneas de formigueiros. O nome dela é Maria Sarah Mansilla, e a saga do seu personagem, o grilo Benjamín, já esta na sua terceira parte. Ao todo, já vendeu mais de 13 mil cópias em menos de três anos.

Benjamín é um virtuoso grilo violinista que, por ser um destacado aluno do conservatório em que estuda, é escolhido para guardar o segredo do pergaminho escrito no sétimo dia da criação do universo. O problema é que o malévolo Bulluz, um malfeitor com cabeça e garras de abutre e asas de mariposa, faz de tudo para atrapalhar a turma do bom inseto e se apoderar do segredo. A saga já se desdobrou em três tomos (Benjamín y el séptimo cofre de oro, Benjamin y el bastón de Zenón, e o mais recente Benjamín y el canto de los bosques). M. S. Mansilla prevê ainda mais quatro partes.

Edição e divulgação

Encontro Mansilla numa feira de livros em Sucre, capital legislativa da Bolívia. Era a única escritora presente no evento. Como uma musicista, atriz ou qualquer outro tipo de artista que se preze, ela não vê motivo para um escritor se esconder do seu público. Ao contrário, já havia visitado três canais de televisão naquele mesmo dia e estava com a agenda cheia de compromissos com emissoras rádios e jornais impressos no dia seguinte.

Além disso, é ela mesma que manda imprimir os livros, busca-os na gráfica, controla gastos logísticos e materiais, e também faz as vezes de vendedora. Na maior parte das feiras que participa, seus livros costumam figurar na lista dos mais vendidos.

A autora autografando uma de suas criações

Pergunto a Mansilla se as grandes editoras ainda não se interessaram em comprar os direitos da saga. “Sim”, ela logo responde “mas o que acontece é que o preço final do produto ficaria muito alto, e eu quero que seja acessível”. Quando dá palestras em escolas, ela costuma oferecer seus livros por quase metade do seu preço habitual. Segundo ela, sob o poder de uma editora, isso não seria possível. E Mansilla acha importante que as crianças sejam estimuladas para a leitura.

Processo criativo

Fico impressionado como Mansilla consegue escrever um livro por ano, na verdade um calhamaço com mais de 400 páginas, e ainda com a qualidade que tem lhe rendido sucesso de crítica, não apenas de público.

“Trabalho duro”, diz ela suspirando. A autora já foi enfermeira e artesã, e jamais escrevera narrativa alguma antes de aparecer na sua mente a história de Benjamín. Tampouco tem vergonha de admitir que nunca foi uma grande leitora. “Minha escola foram os contos orais que ouvia na infância”, ela lembra.

Depois de fazer uma cirurgia no joelho, Mansilla entrou em desespero ao ouvir o médico dizer que ela precisaria ficar em repouso. “Mas o que vou fazer parada em casa?”, ela mesma tinha a resposta: “escrever um livro”. A idéia de toda a saga lhe apareceu repentinamente. Depois disso, o que restou foi o compromisso de acordar cedo todos os dias para escrevê-la.

Para criar cada um dos livros, a autora demora entre quatro e seis meses, escrevendo oito a dez horas por dia. Ela flexibiliza os horários quando tem compromisso com os filhos e netos, mas nunca deixa de compensar as horas perdidas nas semanas seguintes. Depois do produto pronto, é hora de imprimir, lançar, divulgar, viajar, dar entrevistas, fazer balanços de gastos. E quando a turnê acaba, é hora de Mansilla sentar-se outra vez por mais seis meses para continuar sua própria saga.

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[poema] Acima do nível do mar

Tarabuco se transforma numa feira todo domingo,
jovens turistas europeus fazem compras
e passam filtro solar
                   na praça principal.

Quantas cores pode ter a Bolívia?

Cholas passam carregando nas costas ervas
                                                                  panos
                                                                  filhos
Usam saias até os joelhos, aventais,
longas tranças e chapéus espirituosos.

O que transforma a young Kacey em Kacey
                                  a jovem Thais em Thais
                                  e a cholita Juanita na chola Juana?

Encontramos um restaurante para não-turistas,
servem apenas um prato
e custa um terço daqueles em volta da praça.

Há dentro da geografia de toda cidade boliviana
sempre duas cidades –
um vasto e orgânico serpentear de ruas hambrientas,
e um estático linear de pontos
               com cardápios universais
                                   e ar condicionado
que só é mesmo verdadeiro
nas páginas claras e capa colorida
de um guia Lonely Planet novo em folha.

Vejo as solas das minhas botas,
             começam a descolar.
Mas agora,
             ao menos,
me sinto perto de algum
                       lugar.

Tarabuco, 26 de setembro de 2010.

Leia outros poemas clicando aqui e aqui.

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Piratas de dados


Ontem uma campanha bem-sucedida conseguiu levantar fundos através de doações para realizar um documentário sobre o site The Pirate Bay. O Pirate Bay é conhecido por ser o maior e mais perseguido compartilhador de arquivos da internet, e, nesse exato momento, seus quatro principais responsáveis estão sendo julgados numa corte em Estocolmo por violação de direitos autorais.

O responsável pela campanha, Simon Klose, passou dois anos acompanhando os cabeças do site, tendo mais de 200 horas de registro em vídeo. Agora, com a grana da campanha, vai conseguir contratar um editor e um estúdio profissional de edição para terminar o documentário.

Mas o que chamou mesmo minha atenção foi o fato de Klose citar duas estratégias de sobrevivência do Pirate Bay que rementem diretamento às estratégias dos piratas do livro Piratas de Dados, ficçao científica do mestre cyberpunk Bruce Sterling: 1. tentar comprar uma ilha; e 2. apoiar iniciativas como wikileaks.

1. Comprar uma ilha: os militantes do Pirate Bay cogitam fazer seu paraíso de dados em uma ilha com legislação própria, assim como no livro de Sterling, ilhas com leis frouxas em relação a direitos autorais e de privacidade recolhiam e armazenavam dados. A diferença é que na ficção, as informações eram vendidas ao mercado externo. Esta era a base da ecomia desses países que realizavam, assim, uma espécie de “tráfico” de dados.

Granada, Singapura e outras eram as chamadas “ilhas na rede” que dão o título original ao livro (“Islands on the Net”). “A Rede” no livro de Bruce Sterling é nada menos o que conhecemos como internet. O livro foi lançado em 1989 e narra um futuro próximo, os anos de 2023 a 2025. É claro que o autor resvale em alguns equívocos, mas, de modo geral, traça um panorama consistente.

2. Apoiar iniciativas como Wikileaks: o wikileaks é uma organização dedicada a armazenar e publicar em seu site documentos, fotos, vídeos e informações confidenciais de fontes anônimas vazadas de governos e empresas.

O site já publicou um vídeo de um helícoptero norte-americano num ataque que matou 12 pessoas em Bagdá – entre eles dois jornalistas da agência Reuters; o manual de tratamento para prisioneiros de Guantánamo; um relatório da Comissão Nacional Queniana de Direitos Humanos sobre a política de extermínio no Quênia; entre outros documentos polêmicos.

Pois os piratas de Sterling também mantinham cópias de quaisquer documentos – confidenciais ou nã0 – que trafegavam pela rede. No livro, os lotes de informação são vendidos para espionagem industrial e outros fins, além de servirem para fazer investigações e chantagear outros governos.

Simon Klose não aprofunda as relações entre o Pirate Bay e o Wikileaks, no entanto uma coisa é certa: os documentos citados fazem balançar o status quo. E é esse mesmo status quo que defende os direitos autorais de maneira ferrenha e persegue os compartilhadores de arquivo.

Nosso momento de convergência e mudança das relações de consumo de informação coloca até o mais próximo futuro como uma incógnita. Nesses momentos, livros como Piratas de Dados são de uma leitura iluminadora – a boa ficção científica mais do que prevê, molda e cria nosso futuro.

Leio o livro online ou faça o download gratuito clicando aqui.

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Um livro para desvendar o Paraguai

Chegando a Asunción pelo rio Paraguai (foto de Thais Brandão)

Ah, o Paraguai! Em minhas andanças pela América do sul, este foi seguramente o país em que mais me senti em casa. E acho que uma das principais razões para isso foi encontrar em suas ruas, em seus habitantes, em seus programas de tevê, jornais, revistas e livros uma questão que estava igualmente presente em qualquer debate na minha antiga casa, o Rio Grande do Sul: o tema da identidade.

Mas, diferente do RS, onde essa contenda vinha quase sempre nas entrelinhas, no Paraguai a bandeira foi escancarada. O que é a cultura paraguaia? Isso realmente existe? Qual é o denominador comum que une o Paraguai como nação? Esses são questionamentos fáceis de encontrar em qualquer estante de livraria.

Há inclusive best-sellers sobre o assunto. Sim, um dos livros que está perpetuamente na lista dos mais vendidos do Paraguai se chama En busca del hueso perdido – tratado de Paraguayología (Em busca do osso perdido – tratado de Paraguaiologia), de Helio Vera.

En buca del hueso…, lançado em 1989, é um ensaio que me ganhou logo nas primeiras páginas. E convenhamos: não há como não se abrir para um texto do qual seu autor afirma de cara que sua intenção ao escrevê-lo era nada mais do que se divertir. E é se divertindo que este escritor e jornalista chega a conclusões e sacadas iluminadoras.

Lamentavelmente, não há edição em português do livro. Mas, pra ser sincero, o espanhol de Helio Vera pode ser encarado numa boa. E, notícia ainda melhor, está disponível na íntegra gratuitamente nesse link aqui.

Se minha descrição não te emocionou suficiente para desbravar terras literárias paraguaias, aí vai um trecho que eu mesmo traduzi para aguçar ainda mais tua curiosidade. Nele, Helio Vera discorre sobre a idéia de dois Paraguais. Qualquer semelhança com o Brasil não deve ser mera coincidência. Compreender melhor este irmão e vizinho é compreender melhor nós mesmos.

O país de gua’u e o país de teete

Devo propor uma pergunta que resultará sincera: onde encontrar a cultura paraguaia? E, portanto, onde pesquisar seus mecanismos de funcionamento? Onde encontrar seus códigos secretos? As perguntas são pertinentes porque são alimentadas por esta realidade: não existe só um Paraguai, e sim dois, culturalmente falando. Coexistem dentro da mesma geografia, como irmãos siameses, sem que um possa ser compreendido sem levar o outro em consideração.

No primeiro posto, rutilante de luzes e bandeiras, num lugar bem visível, anunciado por trombetas e tambores, encontra-se o Paraguai de gua’u, palavra guarani que designa o que é simulado, regido pela ficção, falso, trucado, mentiroso. Em segundo lugar, já numa quase penumbra, oculto como um ladrão, humilde como um mendigo, mas vital e vigilante, está o Paraguai teete, outra eficiente palavra guarani empregada para nomear ao que é real, autêntico, genuíno, claro, puro.

São dois países bem distintos um do outro. Vivem sobre a mesma geografia, como animais de diferentes espécies disputando um único terreno de caça. Mas ambos se encontram em estreita em inseparável vinculação. Um envolve o outro como a casca envolve a polpa de uma fruta, como a pele envolve a musculatura. São o avesso e o direito de uma só medalha e não podem ser compreendidos separadamente.

O Paraguai de gua’u é uma concessão da cortesia. E esta, já se sabe, é uma virtude paraguaia por excelência, nisso estão de acordo todos os que estudaram o assunto. Nesse caso, a cortesia é dirigida ao mundo exterior. Exterior ao país, que fique claro. Refiro-me ao vasto e misterioso mundo dos pytagua (estrangeiro), que se estende mais além de nossas fronteiras, aos quatro pontos cardeais. Um mundo ao qual, do nosso isolamento, sempre temos visto como perigoso e hostil, capaz de comportamentos imprevisíveis.

O Paraguai de gua’u é como a fachada de uma casa nova, cujos adornos e firulas têm como finalidade cultivar a admiração daqueles que passam pela rua. Só que aqueles que vivem dentro da casa não podem ver os enfeites que foram postos na parte de fora. Esta lhes foi vedada. Mas podem imaginá-la, supor suas linhas, sonhar seu desenho e construí-la interiormente, alta e deslumbrante, elevada e límpida sob o sol.

Gostou? Leia o livro aqui.

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