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…é desequilíbrio.

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“A primeira vez que usei minha câmera foi as oito anos de idade para me fotografar. Não me lembro muito bem, mas imagino que pensava então que fotografia fosse uma forma de arte. Hoje eu vejo a fotografia dominada por uma conspiração entre museus, revistas, livros e publicidade, usada e abusada por qualquer um de qualquer jeito e para qualquer fim, em perigo de perder o respeito por si mesma.

Aos quarenta e dois anos sinto que muitas vezes falhei, que diariamente também eu participei dessa conspiração. A cada momento você é aquilo que você é. Você anda até onde você pode andar. Você acorda à medida em que você pode acordar.”

Otto Stupakoff, do livro Fotografias, 1978.

ale- Coração maravilhoso!

- Firmão, doutor?

- Firmão! Uma bala teu coração!

Ah, o coração, meu melhor e mais fiel amigo! E vou assim, sempre aprendendo a te escutar.

Hoje peguei o Bom Jesus pra ir pro trabalho. Podia pegar um ônibus com ar condicionado se esperasse mais, mas sei lá, já era meio em cima da hora e continuo meio neurótico com atrasos.

Dois bancos vazios, do lado que não pega sol! Hoje é meu dia de sorte! Não, não te empolga, é que alguém sentado ali vomitou no chão e ninguém vai sentar de novo até limparem, a não ser que esse alguém curta passar a viagem toda pisando no vômito dos outros.

E ainda um calorão dentro do Bom Jesus! Esse vômito vai feder… Que nada, não fedeu. Era um vômito educado, não queria incomodar os passageiros, parecia até envergonhado de estar ali, ocupando  o lugar de duas pessoas. Percebi até um certo rubor de timidez tingindo suave aquela massa marrom – estranho, não parecia feijão…

Mas, podem crer, foi a viagem mais agradável de todas. Era lindo ver as pessoas indo felizes sentar nos bancos e, de imediato, torcerem a cara e irem em busca de outro lugar – assim como eu também tinha feito pouco tempo antes. A gente vive no meio da merda, a gente veio do meio da merda, a gente recebe água com merda nas nossas torneiras, e nem todo cloro do mundo é capaz de banir a sujeira que nós somos. E uma pisada mal calculada no vomitozinho do ônibus já é capaz de estragar o  dia de meio mundo. A gente é um bicho bem engraçado mesmo.

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Tá no mural o roteiro da maratona! A semana começou com nada menos que oito filmes que não me perdoaria de não vê-los na tela grande. Isso numa semana que, cinematrograficamente falando, iniciou na terça e vai terminar na quinta, já que o preço das salas é impraticável em feriados e de sextas a domingos. Pelo menos uns três vai dar pra ver até amnhã.

Ontem foi dia de Foi apenas um Sonho, filme que Sam Mendes fez sob minha encomenda. Valeu, Sam, ficou bem do jeito que eu queria! Não vou comentar nada a respeito, só uma palavra do fundo do coração pra quem ainda não viu: assistam.

E hoje vai ser dia de Café dos Maestros. Sim, eu sei que esse eu já deveria ter visto, não rolou mas vai rolar agora. E boas sessões – de cinema ou de qualquer outra coisa – pra todos nós!

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“Quando você está bem consigo mesmo, não importa a bandeira que esvoaça sobre sua cabeça, ou quem é o dono de você, ou se você fala inglês ou algum dialeto desconhecido do norte da África. A falta de jornais, a falta de notícias sobre o que os homens estão fazendo nas diferentes partes do mundo para tornar a vida mais agradável ou mais desagradável é a maior felicidade. Se nós pudéssemos simplesmente eliminar os jornais, tenho certeza de que a humanidade faria um grande progresso. Os jornais alimentam mentiras, ódios, avareza, inveja, medo, malícia. Nós não precisamos da verdade da forma como ela nos é servida mos jornais. Nós precisamos de paz e solidão e preguiça.”

Henry Miller, em O colosso da Marússia. O grifo é meu.

Estamos no fim de janeiro. Olho o post mais recente desse blog, tanto tempo atrás… quanta euforia. Tanta coisa por fazer. Pronto, pouco mais de um mês depois está tudo feito. E agora?

Agora tenho fantasmas maiores pra pescar. Todos uns fudidos, bem grudados em algum lugar que desconheço. O corpo finalmente entrou em crise, precisava respirar. Febre e um dos pulmões praticamente podre. Agora parece querer voltar ao normal de novo. Sente falta dos cigarros – dá uma coceira por baixo dos músculos. Mas vou continuar sem eles. Além de terem me traído, agora estou sem trabalho, uma despesa a menos. Já faz tanto tempo que vivo assim que já me bate uma curiosidade de como será a vida sem fumar. Na verdade, prefiro não pensar nisso. Segue os sentidos, Alemão, e seja feliz.

Mas digo isso porque não sei se essa confusão toda é ou não abstinência. Acho que não. A vida é transformação. E sofrimento. Ainda bem. Estou vivo.

E agora chega. Esse papo tá uma bichice só.

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Tranquei a porta do quarto, engoli a chave e tomei soda cáustica para ajudar na digestão. Saí pela janela. Ao me ver chegar no quarto andar, o senhor de chapéu panamá que ali mora não se conteve de satisfação e passou a entoar alguma canção ligada à sua infância rural. Fazia isso enquanto batia palmas ritmadamente. Já ia começar a dançar quando lhe acerto a moeda de cinqüenta centavos na testa. Ele cai no sofá e volta a olhar fúnebre para algum dos papéis espalhados pelo chão.

Dali mesmo dou três voltas num salto mortal. O pescoço é a primeira parte do corpo a tocar o telhado da garagem. Tão musical o estrondo. Enquanto penso na sinfonia percebo que já estou a quarenta quadras da janela de origem. Esqueci a luz acesa.

Uma ruiva sardenta, catorze anos e um olhar de puta do século dezenove, vem em minha direção. Lambe os dentes enquanto lhe ofereço gentil o braço convidando ao passeio. Saímos desfilando, ora uma pirueta, vez em quando um pontapé, arroubos de distribuição de cotoveladas. Pelo menos naquela noite, sob aquela luz, éramos o casal mais bonito da cidade.

Vão lamber sabão ou, não tendo mais o que
fazer, vão dar um pouco a bunda!
Canalhocratas, cachorrada consentida.
Seus paíbas, suas marias-judias. Vocês
não prestam. Sua caras balofas e modais
refletem um ofício porco que esquece povo,
gente, cidade, tudo.

João Antônio, sonâmbulo.

pmc

“Pensei: esse é o lugar ideal para botar um galpão de lixo limpo, para conscientizar o povo sobre a coleta seletiva”, disse o Irmão marista Antônio Pires Cecchin. Eu concordo. De frente para o cachorro-quente do Rosário, em cima do túnel da Conceição e do lado da minha casa, o sonhado galpão estaria no coração de Porto Alegre: central para os catadores de todos os bairros, além de fazer toda gente que passa por ali conviver diariamente com a reciclagem.

Pois bem, Cecchin organizou o movimento com as mulheres da ilha da Pintada, e foi sugerir a idéia à prefeitura de Tarso Genro. Nesse meio tempo, colocaram um busto ali, arrumaram a grama, e o lugar virou a praça Marcelino Champagnat. Intocável.