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Tranquei a porta do quarto, engoli a chave e tomei soda cáustica para ajudar na digestão. Saí pela janela. Ao me ver chegar no quarto andar, o senhor de chapéu panamá que ali mora não se conteve de satisfação e passou a entoar alguma canção ligada à sua infância rural. Fazia isso enquanto batia palmas ritmadamente. Já ia começar a dançar quando lhe acerto a moeda de cinqüenta centavos na testa. Ele cai no sofá e volta a olhar fúnebre para algum dos papéis espalhados pelo chão.

Dali mesmo dou três voltas num salto mortal. O pescoço é a primeira parte do corpo a tocar o telhado da garagem. Tão musical o estrondo. Enquanto penso na sinfonia percebo que já estou a quarenta quadras da janela de origem. Esqueci a luz acesa.

Uma ruiva sardenta, catorze anos e um olhar de puta do século dezenove, vem em minha direção. Lambe os dentes enquanto lhe ofereço gentil o braço convidando ao passeio. Saímos desfilando, ora uma pirueta, vez em quando um pontapé, arroubos de distribuição de cotoveladas. Pelo menos naquela noite, sob aquela luz, éramos o casal mais bonito da cidade.