
Tranquei a porta do quarto, engoli a chave e tomei soda cáustica para ajudar na digestão. Saí pela janela. Ao me ver chegar no quarto andar, o senhor de chapéu panamá que ali mora não se conteve de satisfação e passou a entoar alguma canção ligada à sua infância rural. Fazia isso enquanto batia palmas ritmadamente. Já ia começar a dançar quando lhe acerto a moeda de cinqüenta centavos na testa. Ele cai no sofá e volta a olhar fúnebre para algum dos papéis espalhados pelo chão.
Dali mesmo dou três voltas num salto mortal. O pescoço é a primeira parte do corpo a tocar o telhado da garagem. Tão musical o estrondo. Enquanto penso na sinfonia percebo que já estou a quarenta quadras da janela de origem. Esqueci a luz acesa.
Uma ruiva sardenta, catorze anos e um olhar de puta do século dezenove, vem em minha direção. Lambe os dentes enquanto lhe ofereço gentil o braço convidando ao passeio. Saímos desfilando, ora uma pirueta, vez em quando um pontapé, arroubos de distribuição de cotoveladas. Pelo menos naquela noite, sob aquela luz, éramos o casal mais bonito da cidade.

2 comments
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17 Dezembro, 2008 às 8:38 pm
Thiago Vendramin
Ruiva sardenta do século 19…???
ahhhh, o seculo 19
ahhhh, as ruivas sardentas.
ahhh, as piruetas…
Aparece lá pelo capullo, hermano…
18 Dezembro, 2008 às 2:09 am
Kauê
ahhh, o casal mais bonito da cidade…