Provavelmente vou escrever um monte de merda aqui. Mas é preciso. Não sei fazer mais nada. O papel é o único canal, a única porta que me espera sempre aberta. Por mais que as deteste, as palavras sabem ser as melhores aliadas de quem luta contra elas, são muletas da verdadeira comunicação que ainda está por vir. Encarnam o interruptor que aciona e nos faz encontrar a lâmpada que queremos apedrejar. O pesadelo em que vivemos não tolera nada que não possa ser impresso, que não possa ser grafado, que não possa ser guardado. Nada do que estou dizendo aqui é essencial, assim como nada do que possa ser escrito é realmente essencial. Mas o pesadelo também não tolera a essência, e você sabe bem que ela precisa ser extirpada para que o sono continue. Mas, pode crer, ela existe. E não só existe, pulsa com força, está atravessando como um raio a tua sala agora, talvez bata na tua porta daqui a três minutos, talvez até derrube um fio do teu cabelo ou cutuque teu ouvido sorrateiramente. Se você deixá-la agir de verdade, ela vai atacar cada nervo teu, um a um, para depois mordê-los todos de uma só vez ao mesmo tempo, e quando você achar que tudo passou, ainda fará teu pensamento girar até a náusea, e girará de novo e mais uma vez e outra e outra e outra. Não tome um analgésico, é só alguém tentando te lembrar que você está vivo. E livre. Vá então até a calçada, o ar agora é leve, a rua é silenciosa, o teu coração se faz presente e é teu melhor amigo.
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